O festival de números do horário eleitoral gratuito

Jornalista adora usar números. Político então, nem se fala. Bem, começou a chatice do horário eleitoral gratuito e com ele a sucessão de números astronômicos e promessas absurdas. Por isso, temos que estar atentos a discursos de governantes e candidatos quando falam de números e estatísticas.
Estava eu lendo um jornal quando deparo-me com uma matéria de um vereador de Curitiba que conseguiu aprovar um projeto para reajuste de 18% aos funcionários de conselhos tutelares. E lá vem ele justificando: “No Brasil 7 milhões de crianças sofrem violência doméstica, o que significa que 750 menores sofrem violência a cada hora, 12 por minuto.” Falar que durante o minuto que você leu esse post 12 crianças apanharam é o tipo de cálculo que não faz o menor sentido e só serve para impressionar.
O perigo vem quando órgão oficiais (ou nem tanto) vêm a público derramar estatísticas sobre mortes violentas, ou aposentados que ganham salário mínimo, ou quantas pessoas no país passam fome. Ninguém apura a fundo quem levantou esses números ou se as pesquisas são feitas por órgãos idôneos. Quem dirá então se têm embasamento estatístico! Basta usar números com casa de milhões para gerar impacto. Muitos jornais sequer citam a fonte desses dados e os jogam em nossa cara como uma verdade incontestável.
Folheando o mesmo jornal, leio outra matéria, agora sobre obesidade. Mais números, desta vez por médicos defendendo a adoção de um programa de prevenção da obesidade pelo governo: “Dos adultos, cerca de 40% têm excesso de peso, o que corresponde a 34 milhões de pessoas no Brasil.” Curiosa, fui para o gúgou procurar dados sobre o mapa da fome no Brasil. O festival de discrepânicas é enorme. Cada fonte cita um valor bem diferente do outro, mas o mais pomposo é o do próprio governo federal, no site do Fome Zero: “Existem hoje no país 50 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha de indigência. (sic)”
Muito bem. De posse dessas informações, vamos fazer as contas? Seguindo os números fornecidos, 70% da população brasileira é composta de obesos e famintos mendicantes. Isso significa que a cada 10 pessoas, apenas 3 seriam “normais”…
Abram os olhos para as estatísticas que nos empurram goela abaixo. Estamos em ano de eleitoral, todo cuidado é pouco. O caso mais clássico foi a briga de Serra e Lula na última campanha presidencial para ver quem prometia mais “milhões” de empregos. Não contribua para entrar na estatística de porcentagem de trouxas…
postado via palm e trabalhando no plantão

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