Review: Ubuntu


Em fevereiro ganhei um CD do Ubuntu e passei a explorar um pouco o mundo Linux. Não era iniciante, há algum tempo já tinha usado também o Kurumim. Contudo, essa foi a primeira vez que saí do Live CD e passei para o sistema operacional efetivamente instalado.
Eis a seguir as impressões de uma usuária que *não* é profissional da área de informática. Sem falsa modéstia, acredito que seja o review mais pé-no-chão e imparcial sobre Linux que vocês encontrarão por aí. Afinal, o propósito do software livre é sair dos guetos geek e conquistar os usuários comuns, não?


Introdução aos leigos
Antes de mais nada, é importante explicar aos profissionais que não são da área de informática, como eu, que “software livre” não é sinônimo de “software grátis”. Software livre, ou Open Source, são programas de código aberto, ou seja, qualquer pessoa pode fazer modificações nele como bem entender. Por isso existem tantas distribuições Linux por aí – com nomes como Kurumim, Ubuntu, Debian, que todos já devem ao menos ter ouvido falar. Cada uma com usos específicos e adaptadas a certos tipos de usuário; por exemplo, o EduBuntu, uma versão do Ubuntu adaptada para fins educacionais.
Programas Open Source não são necessariamente feitos para rodar só em Linux. O Firefox, que todo mundo conhece, é Open Source e tem versões para Linux, Windows e até Mac.
Software “grátis” é simplesmente um programa gratuito, que pode ou não ser Open Source. O comunicador instantâneo Trillian, por exemplo, é gratuito, mas não é livre – é proprietário. Contudo, o desenvolvedor oferece um Trillian mais turbinado – esse sim, pago. A grande maioria dos programas proprietários exigem a aquisição de uma licença para uso, como é o caso do sistema operacional Windows, da Microsoft.
Live CD
O Live CD é perfeito para quem nunca mexeu com Linux e tem medo de sair instalando. Basta colocar o CD no drive e navegar no sistema operacional. Acostuma-se rápido com a interface e operacionabilidade é simples. Abrir aplicativos e executar tarefas não tem mistério nenhum.
Instalação
Explorado o Live CD por algumas semanas, chegou a hora de partir para uma instalação efetiva. Tenho um K6II que estava encostado (e desmonado) desde que mudei a clínica. Juntando um HD aqui, uma memória ali, montei um pequeno Frankenstein para ver como o Ubuntu se saía nele. A instalação foi rápida e fácil como prometido pela turma do pingüim, qualquer leigo não enfrenta obstáculos como numa instalação de Windows – algo que a maioria dos usuários “normais” sequer ousa fazer sozinho.
Desempenho
O Ubuntu é leve. Levíssimo! E muito rápido! Mesmo com um K6II, com clock de 450 MHz e 128 MB de memória, não houve problemas de desempenho. Essa foi uma grata surpresa. Posso continuar com meu notebook para minhas tarefas cotidianas e deixar o PCzinho “véio de guerra” com Linux em casa, baixando coisas ou com VoIP full time, ou simplesmente para família e visitantes usarem quando quiserem!
Instalação de programas
Não tive problemas em encontrar programas para Linux. Encontrei programas similares aos que uso no meu Windows sem maiores dificuldades, quando não os mesmos – caso do Firefox, Open Office, Audacity e Skype. No mais, instalei comunicador instantâneo, editor de imagem, player de áudio e vídeo e muitos outros de fins bem específicos. O Jpilot é um bom gerenciador de PIM isolado, além de gerenciador e sincronizador para usuários de Palm.
Saindo à caça…
Palm, webcam e multifuncional funcionaram redondinho depois de encontrados e instalados seus devidos drivers. A webcam deu um pouco mais de trabalho, bem como um gerenciador e sincronizador para Symbian (que deu pau na primeira instalação), mas nada que me tomasse muito tempo. E o mesmo para o meu Tablet, que me fez refletir como seria bom se todos os fabricantes já disponibilizassem os drivers e aplicativos para Linux junto com o produto, como fazem com o Windows, onde tudo é tão feijã-com-arroz… Quem já é usuário Linux e vai comprar hardware *depois*, a tarefa é mais fácil. Muitos dispositivos já vêm com suporte a Linux, inclusive com CD junto. A “migração” é que é dolorosa.
Quando parti para o Pocket PC, o bicho pegou. A velha rixa com a Microsoft dá a entender que Linux e Pocket PCs jamais conversariam. Mas funçando em fóruns na internet, vi que haviam algumas soluções. O problema: cada solução era para uma distribuição Linux diferente. Garimpei umas para o Ubuntu. Em alemção, tcheco… ai ai. Depois de uns dias, achei em português e quase caí da cadeira com o imenso tutorial. Que não deu muito certo, talvez por serem para pockets diferentes do meu. Após algumas semanas, cansei e desisti.
Com o iPod foi a mesma luta. Há muita coisa para Linux com suportes a players diversos, mas mais uma vez dei com o nariz na “resistência” entre Linux e outro hardware proprietário. Um amigo me salvou e indicou um link, e descobri que era para o único aplicativo com suporte ao iPod nativo. Instalei, configurei e funcionou só no primeiro sincronismo. Depois, nunca mais. Novamente pedindo socorro, tive que editar algumas linhas de comando e coisa do gênero (céus, minha mãe jamais saberia fazer isso). Fiz, sem saber o que estava fazendo, mas deu certo. Depois de alguns sincronismos, a instabilidade voltou e percebi que a maioria das funções avançadas não funcionava. Tinha que ficar selecionando e apagando manualmente podcasts já ouvidos, e ainda assim ocorriam algumas “zicas”. Como aquela era a única solução nativa para iPod… desisti. Horrível. Não chega nem aos pés do iTunes.
Ainda bem que sou persistente, mas usuários leigos iniciantes com certeza parariam ainda na instalação da webcam. O suporte USB em Linux é, de fato, esquisito. Acostumados que estamos a xingar a Microsoft, aprendi o quando o plug-and-play é maravilhoso. A melhor invenção da face da Terra… e não, OpenXiitas, não me venham desprezar o USB de volta com aquela ladainha de ser proprietário, por favor. Alguém aí conhece algum dispositivo externo hoje que não use USB? Bem, se o Linux deseja chegar em massa aos usuários comuns, esse problema precisa ser resolvido. E urgente!
Mitos e verdades que sempre ouvi sobre o Linux
“Linux não precisa de suporte e é mais fácil que o Windows.”
Não é bem assim. Até eu que sou usuária leiga em nível “avançado” precisei pedir socorro algumas vezes a amigos pinguins. Quanto a ser mais fácil que o Windows, é verdade. O problema é que os usuários que querem migrar para o Linux estão habituados com a interface Windows e podem ter dificuldades no começo. Nada que não se supere logo.
“Todo tipo de aplicativo que existe para Windows existe para Linux.”
É verdade. Desde as tarefas básicas do dia-a-dia, como internet e usos de escritório até aplicações gráficas avançadas, tudo pode ser substituído por aplicativos Open Source.
“Linux não dá pau.”
Enfrentei algumas “zicas” na instalação de aplicativos. Nada grave, mas que ocorreram, não se pode negar. Bem, o meu Windows XP instalado no note desde o começo de janeiro também só deu pau uma vez, e ainda assim porque instalei um aplicativo pra lá de suspeito. Engraçado, será que sou a única usuária no mundo Windows satisfeita com a estabilidade do seu sistema operacional? Eu acho o XP excelente, ao contrário do Nojenta-e-oito e do (aaargh!) Millenium.
Enfim, como qualquer outro sistema operacional, o Linux tem qualidades e defeitos, serve para algumas pessoas mas não serve para outras. Perfeição não existe.
Conclusão pessoal
O Linux é uma excelente opção para os usuários iniciantes na era da informática. Usuários mais avançados, ou usuários e empresas com usos bem específicos talvez possam preferir o Windows em determinadas circunstâncias, e isso não é pecado nenhum. Se os OpenXiitas pregam tanto tanto a liberdade de escolha – alguns vão ao extremos de questionar o QI de quem prefere Windows – vale lembrar que optar por um sistema proprietário TAMBÉM é liberdade de escolha – desde que não haja pirataria, claro.
Pessoalmente dizendo, o Linux ainda não se adequa às minhas necessidades particulares, infelizmente. O que mais me incomodou foi a falta de suporte a determinados hardwares, como o iPod. Embora existam soluções, elas se mostraram insuficientes. Alguns OpenXiitas chegaram a sugerir que eu largasse o iPod e usasse um player mais compatível. Claro que jamais farei isso, pois levei tempo para achar uma solução inteligente para uma heavy-user de músicas e podcasts. E aí voltamos à filosofia que a comunidade Open Source mesmo defende: onde fica a minha liberdade de escolha?
A questão dos drivers e do suporte ao USB também incomoda um pouco. Fiquei chateada em não poder usar alguns hardwares e equipamentos específicos. Mais uma vez OpenXiitas me criticaram, dizendo que driver era um problema menor e que o importante é que, usando plataforma aberta, eu mesma poderia desenvolver os drivers que eu quisesse.
Ora bolas, eu sou dentista, não sou desenvolvedora. Médicos, advogados e estudantes não têm tempo nem conhecimento suficiente para buscar drivers em recôncavos obscuros nos fóruns de desenvolvedores, atolados de siglas esquisitas e termos excessivamente técnicos. Outra vez esbarramos no princípio que todos os Linuxeiros defendem: não é fazer o software livre sair dos guetos e ganhar as ruas, os usuários COMUNS? Usuários comuns querem a simplicidade de um plug-and-play e não tutoriais imensos. Bem, a única coisa que eu sei é que, como desktop, o Linux dá um banho. Fora disso, eu fiquei sem usar meu iPod direito, bem como meu Pocket PC. E minha caneta scanner, então, coitada, é totalmente marginalizada no mundo Linux.
Vale reforçar outra vez que esse é o meu caso, especificamente. A imensa maioria dos usuários só conecta impressora, scanner e webcam. Um ou outro vai usar Palm – que se integra perfeitamente ao Linux, por sinal. O mais importante é que todos esses problemas podem ser resolvido pela própria comunidade. Mas para a Bia Kunze, o momento de migrar *ainda* não é esse.
Conclusão geral
Onde quero chegar na conclusão desse review? Quero ir além dos paradigmas ligados à escolhas. Muito além da mera economia de dinheiro. É preciso conscientizar o povo que, mais do que tudo, fugir da pirataria beneficiará milhões de brasileiros com mais empregos, mais desenvolvimento.
Para chegar lá existem muitos obstáculos a serem superados.
Em primeiro lugar, o mercado e as pessoas precisam perder o medo do “diferente” e aceitá-lo. Aquela família simples, que pela primeira vez compra um PC através do financiamento popular, conseguirá ter suas necessidades básicas supridas com o Linux. O desafio começa quando a filha sai com seu currículo impresso na mão em busca de emprego, e descobre que para ser uma secretária precisa de “conhecimentos de Windows, Word, Excel e Internet Explorer”. Fatalmente ela voltará para casa com um Windows e um Office de R$ 10 na mão, e adeus Linux. Tudo é uma questão de mentalidade do próprio mercado de trabalho, da sociedade, dos empresários. A idéia não é derrubar o sistema operacional da Microsoft, afinal, liberdade de escolha também é preferir software proprietário em algumas ocasiões. O que é preciso, e urgente, é instruir a sociedade dizendo que não há ditadura, existem opções!
A instrução começa na escola. As escolas públicas devem adotar o software livre para mostrar desde cedo aos pequenos que há alternativas. Além disso, o dinheiro gasto em licenças será muito melhor aplicado investindo em livros, carteiras e aperfeiçoamento de professores. Isso felizmente já está acontecendo. As comunidades de educadores estão cada vez mais antenadas. Mas aí já saio do meu campo de conhecimento, recomendo os sites Vivência Pedagógica, da Mary, EscolaBR do Eziquiel e o blog do Sérgio como referências para quem quiser se aprofundar.
Ainda na esfera pública, embora todos venerem a iniciativa do Governo Federal, os aplausos não são unânimes entre membros do executivo e legislativo. A conscientização para uso do software livre precisa vir de cima para baixo e o Governo Federal acertou em cheio dando o pontapé inicial, peitando grandes corporações corajosamente. Mas esse foi apenas o primeiro passo em busca de uma longa estrada a ser percorrida.
É preciso que TODOS os representantes do povo levantem a bandeira. Recentemente o Congresso colocou o assunto em pauta, já que os deputados não se habituaram com as suítes de escritório de código aberto e decidiram voltar a usar softwares proprietários, seduzidos pelas “ofertas” das grandes empresas. Que tal reverter essas “deficiências” dos softwares livres em nosso favor, já que os milhões gastos em licenças são NOSSOS, e não deles? Se as suítes de código aberto não estão correspondendo às expectativas, que tal pegar esses milhões e melhorá-las, investindo nos desenvolvedores? Todos saem ganhando, e por tabela, beneficia-se toda a sociedade brasileira e os usuários em geral.
Mais links…
Ubuntu – oficial
Planeta Ubuntu
Comunidade brasileira
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