Teorizando os teóricos

Estou lendo uma pilha de livros solicitados pelos professores da faculdade. Muitos são bons, outros nem tanto, outros nem direi que não ruins, pois ao menos me dão espasmos de riso. Claro que livros de teóricos da comunicação são a base para a formação de qualquer estudante, mas fazer a prova do bimestre sobre um livro de 1976, de um dinossauro da USP discutindo a “velocidade da informação”, só pode ser piada de mau gosto.


Eu corro o risco passar por pseudo-sabichona e arrogante falando isso na sala de aula, e como não quero encrenca, fico com o bico calado. Eu não sei mais que os outros. Mas me revolto. O que me cansa é ver como os super-doutores de comunicação adoram teorizar em cima problemas que já têm 200 anos e a web tratou de consertar. Sem contar o número expressivo que insiste em separar web das “mídias tradicionais”, como se fazia com leprosos na época que tais dinossauros da comunicação nasceram…
Não sou sabichona. Só quero dizer que falta visão para os grandes “papas” do jornalismo. Aproveitar as oportunidades que a web oferece, suprir as necessidades criadas de uma hora para outra por um público globalizado… parar de teorizar tanto em cima dos problemas e oferecer soluções REAIS!
Mas não. É mais fácil sentar o bundão na frente de uma Olivetti e escrever livros e artigos criticando tudo e todos. Quando um âncora de telejornal comparou seu público ao Homer Simpson, por exemplo, foi um prato cheio. Botar a mão na massa, que é bom, nem pensar.
Os mestres, tradicionalistas e cheios de empáfia, continuam pensando de forma linear. Acham que um jornal online nada mais é que o jornal impresso “jogado” no meio eletrônico. Não têm os MÍNIMOS conceitos sobre informação on demand, distribuição de conteúdo, RSS, convergência de mídias, pesquisas de histórico, ranking de notícias… Meu Deus, em tempos de Digg, ainda tenho que ler que “quem determina a importância de uma notícia, assim como quem determina o que deve ser mais lido pelo público, é o editor” (sic).
E ainda tem o desafio dos direitos autorais. A pirataria corre solta, e ninguém se coça para a profundidade cultural disso. Criou-se novas necessidades no consumidor de entretenimento e ninguém supre. Como têm preguiça de pensar, os grandes executivos tentam resolver os problemas processando, ameaçando e, mais recentemente, tirando sites de LEGENDAS do ar. A lei está certa, mas pensem no quão sem sentido é proibir sites de LEGENDAS. Aliás, essa caça às bruxas, ops, legendas, só mostra como os executivos de mídia são incompetentes. Se um seriado como Lost faz tanto sucesso, por que eles não se aproveitam disso, oferecendo tudo de forma legal para o planeta? Meu Deus, um público ENORME, ávido por um determinado conteúdo, não é o sonho de qualquer produtor de TV? Ninguém quer ver a segunda temporada de Lost pela Globo em janeiro de 2007 enquanto a terceira corre pela web, globalizada, como todo mundo comentando. Até o Santoro já disse que baixa os episódios de Lost pela web!
A repressão pura e simples não vai resolver nada. Produtores, publicitários, marqueteiros… mestres, doutores e acadêmicos… MEXAM-SE! Botem a cachola para funcionar!
Minha teoria sobre os teóricos é que eles merecem um estudo à parte sobre eles mesmos. Não entendeu? Nem eu. Deixa pra lá.
Enquanto isso, lá vou eu pegar mais um livrinho de comunicação, pois as provas começam semana que vem. Paradoxalmente, quanto mais eu leio, menos respostas tenho para minhas dúvidas e anseios em cima do mundo contemporâneo do entretenimento.
P.S.: Daqui a pouco subo o podcast, que está pronto desde ontem. Tenho que resolver um probleminha no computador da minha mãe. Murphy é o senhor do universo, essas coisas só acontecem em feriado mesmo…

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20 Comentários

  • Em 2006.11.02 11:19, cardoso disse:

    A graça de muitos teóricos é que quando o mundo não corresponde às suas expectativas, o erro não está em suas teorias, mas no mundo.
    Entender a interação que ocorre nos sites, blogs e portais, como os usuários determinam, direta ou indiretamente o fluxo de um determinado conteúdo exige um pensamento lateral que a maioria dos teóricos de mais de 30 anos não atinge.
    Assimilar conceitos novos é complicado, se você está acostumado a DITAR esses conceitos, ou no máximo determiná-los, por consenso, com seus pares.
    Na Academia tudo bem, todos têm emprego garantido, mas o jornal que não mudar esse modo de pensar, FECHA.

    • Em 2006.11.02 12:10, Fabiano G. Souza disse:

      Pois é, será que mais inteligente de perseguir site de legendaz, nao seria mais interessante outras medidas?
      Me explico:
      Assim como a perseguicao ao P2P, a perseguicao a sites de legendas pode fazer efeitos a principio,
      mas depois se encontrarão canais alternativos como IRC ou outras até nao inventados para
      distribuir as legendas.
      Para o comercio pirata de dvds, se o cara pegar uma legenda em ingles e traduzir com um robô de traducao, e fazer pequenos acertos, ainda vai ficar muito tosco, mas para o publico que compra dvds piratas isso ainda estará bom.
      Será que medidas mais efetivas nao seriam a reducao real e irrestrita de todas as janelas de lancamento, seja em dvd, tv a cabo ou cinema?
      A tecnologia esta ai para podermos ter esses lancamentos extremamente rapidos.
      Qual o motivo de uma serie como, por exemplo, Lost 3o temporada ainda nao ter comecado a passar no Brasil?
      Apenas preguica de invovar das empresas, achar que ainda vao continuar ganhando do mesmo modo
      num mundo diferente. Quem nao gostaria de assistir na tv a cabo com qualidade um episodio simultaneo com os EUA? Porque nao explorar esses potencial? Ou ainda acham que o publico mais fiel e interessado irá esperar 6 meses ou mais para acompanhar um seriado? Se esqueceram que estao no seculo XXI.
      Se querem combater a pirataria de series, porque nao se preocuparam em trazer a tv a cabo em alta definicao
      para o Brasil, sendo que os divx que baixamos muitos sao excelentes pois sao gerados de canais HD americanos.
      Portanto estao cometendo o mesmo erro da industria fonografica americana, achando que processos e perseguicao irão vencer. Mudar a visao de mundo é o caminho, deixar se ser dinossauros….

      • Em 2006.11.02 15:29, cardoso disse:

        Fabiano, algumas séries é possível inclusive assitir ao episódio que acabou de passar no site da emissora, como Heroes.
        Séries como Galactica contam com podcasts dos produtores comentando o episódio, que vão ao ar simultaneamente ao show, é feito um esforço consciente para popularizar a série.
        Essa perseguição vai acabar nos EUA e continuar no Brasil, pois aqui ainda temos absurdos como DVD do Homem-Aranha sendo lançado em FULL SCREEN (parece que um Harry Potter também). TV de Alta Definição? Faz-me rir.
        Aqui NEM DEFINIMOS AINDA a TV Digital, e acabamos por decidir reinventar a roda. Alta Definição ainda nem foi cogitado. O que vai acontecer é os fabricantes começarem a vender seus aparelhos sem qualquer definição, o mercado chegar a um padrão e o Governo/ANATEL ter que engolir.
        Isso na melhor das hipóteses.

        • Em 2006.11.02 18:40, Neto Cury disse:

          Eu ía dizer que a culpa disso tudo era do santoro… viadinho…
          Mas na realidade, a culpa é dos portugueses, que nos colonizaram…

          • Em 2006.11.03 02:42, Fabiano G. Souza disse:

            Oi Cardoso! O meu ponto de vista é exatamente do lado brasileiro da coisa. Essa falta de visão vem acontecendo há anos, e realmente não há de se corrigir rápido. Concordo com você que os americanos estão mais evoluídos nessa relação.

            • Em 2006.11.03 08:23, Christiano Milfont disse:

              Bia, esse comportamento de pseudo-intelectuais é tão antigo quanto a propria humanidade.
              Fora os charlatões, Schopenhauer pegou um pega-pra-capar com o charlatão Hegel no inico do seculo 19 e pra variar o Hegel venceu… é mais fácil filosofar do que fazer!

              • Em 2006.11.03 08:36, Nabuco disse:

                Culpa dos portugueses? Kkkk…foi ótima essa. Vai lá para Portugal e veja como o país está. Depois contente-se com essa merda de nação que temos. Nós adoramos dizer q somos o melhor em “n” coisas, mas na hora de olhar para nosso umbigo colocamos a culpa nos outros.
                No mais Bia, só tenho que assinar embaixo do seu texto. Concordo em gênero, número e grau contigo. E continuarei baixando tudo pela net…

                • Em 2006.11.03 09:47, cardoso disse:

                  Nabuco, basta ver quando o jornalista do New York Times comentou que o controle de tráfego PODERIA ter falhado no acidente do legacy com o Boeing da GOL, e foi cruficidado por todo mundo, inclusive a própria Bia, que não costuma entrar nessas trips nacionalistas.
                  Um mês depois estamos vivendo a maior crise da história de nosso serviço de Controle de Tráfego Aéreo.
                  Qual a explicação? Bem, aposto que já deve ter alguém pensando em uma teoria conspiratória, ao invés de enxgergar a verdade…

                  • Em 2006.11.03 11:24, Emanuel Campos disse:

                    René Decartes disse que: “Nutrido das letras desde a mais tenra infância fico abismado ao constatar que quanto mais aprendia mais aumentava a minha ignorância”, ou algo muito parecido com isso… E olha, eu fique bravo quando estudando na FATEC-SP, uma faculdade respeitada, em mais de 50% das matérias usei os mesmos livros que meu pai usou, em 76!!! Agora que curso marketing e achei que isso era passado, me vejo de novo estudando livros antiguissimos, em matérias como psicologia, comportamento do consumidor e afins. A faculdade é uma caca mesmo, ao invés de ir para uma boa instituição fui fazer Unidunitê, mas ainda assim, o curso consegue ficar aquém das minhas piores espectativas… O nível do ensino no brasil é uma lástima e ainda há quem não acompanhe o curso lá na minha faculdade!!!

                    • Em 2006.11.03 13:04, R. de Paula disse:

                      É Bia, nós, os futuros comunicadores desta nação, somos obrigados a estudar a fundo, teorias caducas, como Webber, Adorno, entre outros…
                      Acho que deveríamos estudar teóricos + atuais, que já foram mudando e melhorando as teórias desses mais antigos, ou os professores acham que estão criando novos teóricos.

                      • Em 2006.11.03 15:33, Nabuco disse:

                        Pessoal,
                        Eu usei alguns livros que meu pai utilizou na faculdade de engenharia em 1972 e, nos casos específicos, a teoria não mudou nada. Será que nada que vocês estudam serve para os dias atuais ou é impressão minha?

                        • Em 2006.11.03 16:47, cardoso disse:

                          Nabuco, as fórmulas que você aprendeu continuarão as mesmas daqui a mil anos, já na área de comunicação nada é tão simples.
                          Como manter válido um modelo de teoria da comunicação baseado em agentes passivos, onde a comunicação é unilateral, se hoje em dia temos algo como os blogs, onde o gerador da notícia pode ser tanto o autor quanto o visitante, e a importância é determinada unicamente pelo leitor?
                          O modelo antigo, baseado por exemplo na credulidade do leitor vai por terra. Hoje um veículo pode (e deve ser) questionado todo o tempo. Não me importa que a CBN diga que está chovendo Palm em Curitiba, só vou acreditar se ligar para a Bia e confirmar.
                          Existe uma grande parte da população que ainda vive sob o modelo antigo? Com certeza, mas os *pensantes* agora têm ferramentas para exercer seu ceticismo.
                          Quanto ao Homer Simpson, vai continuar achando que o Major Nelson trabalha pra FAB.

                          • Em 2006.11.03 21:24, Bia Kunze disse:

                            1. Epa epa epa, Cardoso, eu não crucifiquei o jornalista do NYT sob o ponto de vista “culpados x inocentes”, eu só não gostei da frieza do relato dele, onde em nenhum momento foi citado que 155 pessoas perderam a vida. E falei que achei esquisito um relato tão pessoal na seção de Economia do jornal…
                            2. Em momento nenhum eu coloquei Adorno e McLuhan como os “dinossauros” do meu texto – suas teorias sobre dialética, meio e mensagem e aldeia global continuam atualíssimas, e firmemente presentes nos nossos dias. Eles não podem ser descartados dos bancos acadêmicos, assim como os clássicos da filosofia, psicologia ou sociologia. O problema são os livros dos acadêmicos brasileiros do final do século passado, que continuam, HOJE, defendendo seus modelos arcaicos e marginalizando as novas mídias. Tá… Parece confuso, mas prometo desenvolver melhor meu raciocínio num futuro próximo e postar aqui.
                            3. Por que será que a CBN chamou uma blogueira (e de tecnologia móvel ainda por cima) para ser comentarista? Pelo menos aqui em Curitiba temos a sorte de ser ancorados pelo José Wille, um jornalista em plena sintonia com o mundo que vive. Acontecendo qualquer evento na internet – vídeo da Cica, Sarney levando surra nos blogs, políticos mandando spam, Orkut, YouTube etc – a produção IMEDIATAMENTE me coloca no outro lado da linha telefônica para comentar, ao vivo. O futuro é esse mesmo: não existe mais “mídia tradicional”, existe uma convergência de todas elas.
                            4. TV Digital, HDTV… estou bem descrente do futuro disso no Brasil. Não pela tecnologia, mas pelos formatos adotados e as políticas de uso. Graças anos nossos governantes, que só fazem política pensando em seus próprios interesses, ganharemos um novo PAL-M. Sou uma ferrenha defensora da mídia democrática, portanto, vejo mais futuro na IPTV. (Não, IPTV não é nome de um novo imposto, como me perguntou um colega outro dia, é TV sobre IP, ou TV via internet).

                            • Em 2006.11.04 00:28, cardoso disse:

                              ok.

                              • Em 2006.11.05 12:29, Ulysses disse:

                                Bia,
                                Você é inteligente, linda, produtiva e sabe escrever (o que provavelmente indica que leu muito). Sou seu fã. Descubri ontem este blog e vou ser cliente constante.
                                Acho que não precisamos eliminar os fundamentos culturais da formação teórica contemporânea para fazer o futuro acontecer. Os dinossauros sempre vão significar um incômodo, porque a vida muda no varejo. Profissionais como você que trabalham na ponta da ponta e com a vida prática sempre vão estar incomodados com verdades estúpidas. Não precisamos ter medo disso: todos sabem que há idiotices históricas até no pensamento platônico e aristotélico. Ambos defenderam teses que são o fundamento da cultura ocidental, incluindo algumas idiotices consagradas, dentre as maravilhas que as acompanharam.
                                Acho que Habermas, por exemplo, que é um dinossauro jovem, traz formulações de grande importância para a relação entre poder e comunicação. Mas as faz acompanhadas de outras pessimistas e muitas vezes desatualizadas a respeito do que ocorre no mundo atual. A gente não precisa jogar ele fora, mas aproveitar a parte boa. Concorda?
                                Só para me atualizar: o que é “site de legenda”? Estou perdendo o filme porque não sei o conteúdo.

                                • Em 2006.11.05 18:49, Bia Kunze disse:

                                  Olá, Ulysses!
                                  Séries de TV costumam ser disponibilizadas na internet de várias formas, mas obviamente o idioma é uma barreira para muitos. Há internautas brasileiros que criam (ou criavam?) legendas para se adicionar nos arquivos de filmes e seriados. E disponibilizavam essas legendas em sites para qualquer pessoa baixar.
                                  Esses sites foram pressionados pela Adapi a deixarem de fornecer legendas, sob pena de remoção do site do ar ou até indiciamento policial.
                                  Obrigada pela sua visita, participe sempre!

                                  • Em 2006.11.06 02:05, Cora disse:

                                    Concordo com você em gênero, número e grau. O teu post devia ser leitura obrigatória para TODOS os professores de jornalismo — e para muitos colegas meus ativos em redações também. Na verdade, acho que você podia muito bem estar dando aula sobre o que é comunicação no século XXI. Já é uma grande jornalista; conhece como poucos o setor, gosta do que faz, tem uma curiosidade insaciável e dá o seu recado com a maior clareza e simpatia.

                                    • Em 2006.11.06 10:35, Renato disse:

                                      Discussão inútil. Todo aluno acha que sabe o bastante, mas paradoxalmente, freqüenta a universidade.
                                      Se o seu ponto de vista e experiência mostram coisas diversas das que são ensinadas, abra a discussão em sala de aula.
                                      O que mais dá tédio, ensinando, é uma classe que não questiona, que engole tudo quieto, como parece ser o seu caso.
                                      Abra a discussão, fale argumente. Você é uma pessoa muito inteligente, então abra a boca!
                                      Agora, se a sua classe ou o seu professor não quiser discutir, aí sim, é caso para polícia.
                                      Por favor, não me leve a mal. Mas acho que você tem a chance de mostrar que estamos em meio a uma revolução na forma como a mídia se relaciona com os seus clientes. Talvez, por este motivo, não se encontrem muitas pessoas que entendam do caso e você parece ser uma das poucas que está, não apenas surfando a onda, como tirando proveito dela.
                                      Bia, lembre-se, que os alunos que trazem coisas novas, criam polêmicas saudáveis (e oxigenantes) são os que sempre serão lembrados pelos seus professores. E tenha certeza, que os bons professores, adoram alunos inteligente, polêmicos e criativos.

                                      • Em 2006.11.19 13:17, Valéria Mendonça Caldas disse:

                                        aqui vai um desabafo:por que é tão difícil entrar no mercado de autores,quando muitos autores que escrevem mal,estão na mídia e muitos que escrevem muito bem,não tem a chance nem sequer de mostrar seus escritos,acho isso muito injusto,só porque tê conhecido no meio podem ser reconhecidos?

                                        • Em 2007.05.15 14:24, ulisses disse:

                                          rpz ler eh um saco u negocio eh ctrl c ctrl v

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