Aproveitando o sucesso dos projetos assistencialistas do governo federal, o ministro Hélio Costa viajou na maionese e propôs a criação de um programa chamado “Bolsa Celular”. A iniciativa prevê a distribuição gratuita de celulares para as pessoas que já são beneficiadas pelo programa Bolsa Família.
Todos sairiam ganhando: as famílias, com acesso à comunicação via redes móveis, o governo com os impostos (ainda que com incentivos fiscais) e as empresas, aumentando sua base de clientes.
Obviamente, jornalistas, formadores de opiniões e articulistas de diversos veículos já se pronunciaram a respeito de tamanho absurdo. O problema é que muita gente confundiu “dependência de celular” com desenvolvimento.
Quem vai negar o bem que a telefonia móvel trouxe a milhões de brasileiros? Não simplesmente encurtando distâncias, mas proporcionando condições de trabalho a eletricistas, jardineiros, pedreiros, carpinteiros, diaristas, fretistas… ou levando comunicação e informação a lugares remotos onde nenhuma empresa antes havia puxado um fio de telefone fixo?
Indagado a respeito, o jornalista Carlos Heitor Cony disse na rádio CBN: “a humanidade sempre viveu bem sem celular (…) as pessoas deixam de falar entre si para falar no celular (sic)”. Ainda bem que o Xexéo foi mais sensato, senão eu teria tido um piripaque.
Fala-se de pessoas que, ao ficarem desconectadas, entram em pânico. Sentem-se nuas. Que reclamam do chefe que não sai mais de seu pé por causa do celular. Da escravidão. Isso não é culpa da telefonia móvel, e sim das pessoas que não sabem utilizá-la.
Eu não tenho receio nenhum em desligar celular e internet quando estou trabalhando. Quando preciso escrever, ou produzir algo importante, desligo tudo. Até tiro o fixo do gancho. Para isso existe caixa postal e SMS. Também posso desligar os aparelhos quando quero descansar e curtir a família num fim-de-semana. Na própria rádio CBN o Max Gehringer já falou que, para 99% dos profissionais, não se necessita ficar à disposição 24h por dia.
Nada pode ser tão bom quanto, num fim de semana, deixar o celular desligado mas, eventualmente, ligá-lo para entrar na internet e checar a programação cultural em sua cidade. Ou procurar um restaurante novo usando mapas e GPS. Ou combinar de encontrar os amigos trocando SMS. E depois, desligar tudo outra vez! É essa a verdadeira liberdade que o celular nos trouxe.
Respeito o Cony, mas não dá para ficar quieta diante de certos comentários dele. Depender de celular para tudo é uma imensa bobagem, mas em nome disso negar o progresso e as oportunidades é uma tremenda estupidez. (Engraçado que tem muito mais dependentes de televisão e ninguém fala disso…)
Todos precisam entender que o processo de inclusão das classes desfavorecidas à telefonia móvel já está acontecendo há anos. Nunca houve distribuição de celulares, nem de créditos de pré-pagos, e o governo nunca comprou cabos e antenas. A resposta é: livre concorrência.
Nada é mais saudável para a expansão das telefonias fixa e móvel (que hoje também englobam internet e TV por assinatura) que a competição: a qualidade dos serviços melhora e os preços caem. Se não tomarmos cuidado, vamos retroceder ao oligopólio. Felizmente a empresa de telefonia GVT foi, recentemente, comprada pela francesa Vivendi ao invés da Telefonica. Caso contrário, nós, brasileiros, estaríamos quase que exclusivamente nas mãos de apenas 2 grandes grupos, a Telemar e a própria Telefonica.
Ministro Hélio Costa, vamos parar de estender a mão para as telecoms e tratar de levar infra-estrutura básica e escolas a todo o país. Feito isso, as pessoas tem condições de se desenvolver por si mesmas!
Do outro lado, gostaria que articulistas influentes como o Cony parassem de idolatrar o passado e começassem a defender nossa cidadania no presente. No início da carreira dele não havia tanta correria, cobrança e estresse. Podia-se almoçar com mais calma, celulares não tocavam o tempo todo, não havia trânsito, ônibus cheios, trombadinhas e poluição. Quem disse que isso não inspira uma ponta de saudade? Só que o mundo mudou. Hoje não apenas se cumpre expediente, cobra-se desempenho. É preciso fazer pós-graduações, MBA, saber falar várias línguas e dominar um computador. É preciso ter o mundo na ponta dos dedos. Será que é justo negar desenvolvimento e acesso à informação às novas gerações, em nome das supostas virtudes de um tempo que ficou para trás?
Vamos lutar contra o oligopólio das telecomunicações no nosso país!
* * * *
Aproveitando o gancho: recomendo para leitura o ótimo post do Christian Barbosa, o maior especialista de gestão do tempo do país, explicando usuários de redes sociais, longe de serem pessoas isoladas, frequentam bem mais bibliotecas e parques que os “desconectados”: Internet não mata sua vida social.









[...] This post was mentioned on Twitter by Bia Kunze and Bee Kerouac, Rafael Augusto. Rafael Augusto said: RT @garotasemfio: No blog: Bolsa Celular e o oligopólio das telecoms http://bit.ly/xg1Xz [...]
Esta realmente é a última que o governo poderia fazer, não há bolsa mais falastrona e eleitoreira que jogar celulares (a vedete dos tempos modernos) ao público. Não vamos misturar política com tecnologia, que isto não tem nada de tecnologia. Quem seria a operadora do governo? Qual a fornecedora do aparelho? Quem daria suporte e ensinaria a usar e a usar consciente estes aparelhos? Eles falariam de graça entre sí num plano TIM infinity? A cabeça de bagre terá se perguntado se ele está enriquecendo uma operadora e uma fabricante à troco de nada? Ou teria participação em uma operadora e/ou montadora de aparelhos?
Eu queria uma bolsa celular… não aguento mais minha fatura estourada todo fim de mês.
Eu queria tambem uma bolsa celular…
Beijos, Ana