Mania de fazer listas (ou: você se considera refém da tecnologia?)

Recentemente recebi um email de um leitor que me deixou intrigada. Segue:

“Bia, me chamo Marcus, tenho 33 anos (…) por causa do seu relato do uso do Evernote no Podsemfio n.160, parece-me, com perdão da palavra, fanatismo usar a tecnologia para fazer todo tipo de marcação de placa de rua, passando por livros que pretende adquirir até eventos que vão se realizar. Desse jeito fica-se preso a listas e coisas para fazer que talvez jamais sejam feitas, já pensou que você pode estar sendo refém da tecnologia?”

Minha resposta

Antes de tudo, precisamos definir o que é “ser refém da tecnologia”. Se você é um refém da tecnologia, seria a tecnologia seu algoz? Isto envolve dependência? Em que grau?

Eu comecei este blog há quase 14 anos para mostrar como poderíamos dominar a tecnologia e usá-la a nosso favor. Ela nunca foi, por si só, um fim. Foi com ela que otimizei meu trabalho em consultório, passei a fazer homecare odontológico, escrever, atuar em comunicação e muito mais. Sem ela, minha vida teria tomado um rumo completamente diferente.

É muito comum vermos relatos na imprensa de pessoas que são dependentes de celulares e redes sociais. Um vício caracteriza-se quando a pessoa passa a ter prejuízos por causa de certa dependência. A ciência explica que o vício afeta os circuitos de recompensa do cérebro, de tal forma que as memórias de experiências anteriores ativam o desejo e mais comportamentos de dependência. Isso vale para cigarro, drogas, álcool, sexo, comida e até celular. Basta ver os relatos desesperados na web quando o Whatsapp ou o Facebook saem do ar por algumas horas.

O hábito de catalogar e fazer listas não tem nada a ver com tecnologia. E o Evernote, para mim, é uma ferramenta tecnológica que me ajuda em algo que fiz a minha vida toda e sempre me trouxe muitos ganhos — jamais prejuízos. Explico…

Mania de fazer listas desde sempre

O hábito de fazer listas começou ainda criança. Em viagens de carro, a fim de não enlouquecerem, meus pais me davam papel e caneta e me colocavam para anotar frases engraçadas que visse em parachoques de caminhão. Era divertidíssimo. Em pouco tempo, escrever e desenhar se tornou uma paixão, mais até do que brinquedos convencionais. Passava horas desenhando, criando personagens, fazendo quadrinhos e escrevendo “livros” de histórias.

Um dia vi que meu pai tinha cadernos muito antigos, com nomes de filmes e atores de cinema listados. Nos anos 50 e 60, ele anotava todos os filmes que assistia e todos os livros que lia, principalmente em alemão (que para ele era a língua nativa) e o inglês. Foi assim que ele se tornou proficiente em línguas. Minha mãe, descobri mais tarde, fazia o mesmo com equações. Ela desenvolveu uma destreza com números desde cedo, graças àquilo que para ela começou como brincadeira.

Embarquei na onda facilmente. Quando criança, um dos meus passatempos era ouvir músicas em inglês e transcrevê-las. Não existia internet, o negócio era no ouvido e no dicionário! Meu pai me ajudava. Foi assim dei os primeiros passos em língua estrangeira. Fiz muitas listas de músicas e discos. Na adolescência, apaixonada por jazz e sapateado, listava todos os filmes de Gene Kelly e Fred Astaire que podia, e anotava todos os números de dança de cada filme, com título da canção, atores e duração. Antes do vestibular, peguei a mania de fazer listas de acidentes anatômicos, fórmulas, fichas de leitura…

Não fui só eu. Tinha amigos com as mesmas manias. Um fazia listas de partituras. Outro fazia listas de escalações, partidas e placares da seleção brasileira de futebol e do seu time do coração.

Analisando tudo em retrospecto, percebo hoje que as pessoas mais criativas ou que mais destacaram em suas áreas de atuação são as que se dedicaram mais ao aprendizado, transformando pesquisas e leituras em listas. Meu amigo das partituras dá aulas de música na Europa. O das escalações se tornou um jornalista esportivo de mão cheia. E sabem o Rubens Ewald Filho, o crítico de cinema que parece que tem Hollywood inteira na memória? Quase pirei quando o vi num programa de entrevistas mostrando seus cadernos dos tempos de criança…

Aqui em casa também tem um “listeiro” desses. Costumo brincar com meu marido que ele é um Shazam de carne e osso. Toque para ele qualquer rock dos anos 60 e 70, seja clássico, pesado ou progressivo, que ele diz o nome da música, álbum e banda — mesmo as mais obscuras.

Um belo dia, organizando as anotações antigas dele, encontrei um caderno velhinho, amarelado, de meados dos anos 80. Adivinhem o que continha? Listas e mais listas de álbuns de rock!

Ele não se tornou músico porque não quis, mas é uma pessoa extremamente criativa na área em que atua hoje. E continua fazendo suas listas…

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Marcus…

Hoje, com a tecnologia, fazemos listas de forma muito mais fácil e eficiente. E guardar tudo isso, bem como localizar informações, nunca foi tão simples. Os cadernos não tem barra de busca. Mas o Evernote sim, e ele acha coisas até dentro de PDFs, JPGs e textos que escrevi à mão. O Evernote é um repositório de vida, uma memória perpétua. Por isso seu símbolo é um elefante. Sobre as coisas para fazer que talvez jamais sejam feitas… certamente eu faria MUITO menos do que faço sem minhas amadas listas. Gosto de ter controle sobre minha vida e focar no que realmente quero conquistar.

Graças às listas de livros que quero ler, tenho lido como nunca. Estou convicta que este hábito que desenvolvi desde cedo ajudou a moldar quem eu sou — na profissão de odontóloga, nos idiomas que domino, nos textos que escrevo e no trabalho de consultora e professora que exerço hoje.

Só tenho um pequeno cuidado: muita coisa eu ainda prefiro fazer à mão, em escrita cursiva mesmo, e guardo no Evernote. Mas isso é assunto para outro post!

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11 Comments

  • Em 2016.01.21 11:09, Felipe Augusto disse:

    Excelente texto, tinha essa confusão também de achar que ficar utilizando ferramentas que me ajudam a organizar o meu dia a dia fosse um vicio, mas pelo contrario esta me ajudando muito pois como tem pouco tempo que resolvi aderir de vez os meios digitais para controlar praticamente quase tudo que faço estou diminuindo o uso de papel e praticamente não esqueço de executar minhas tarefas tanto na faculdade, trabalho ou pessoais porque tenho listas em aplicativos que me avisam por celular, e-mail, SMS assim fica difícil de esquecer né. E com essa digitalização dos documentos tenho muitas possibilidades e para encontrar documentos que antes poderia demorar dias por causa das pilhas de documentos e u acho em segundos!!! Não me acho um refém da tecnologia pelo contrario ela aumentou minha produtividade.

    • Em 2016.01.21 12:31, Bia Kunze disse:

      O vício é algo que você não consegue parar de fazer mesmo sabendo que é prejudicial. Facebook e Whatsapp são vícios, você passa horas lá, depois sente que seu dia não rendeu, que você não fez nada produtivo. Mesmo assim, no dia seguinte, lá está você matando tempo de novo…

      • Em 2016.01.21 11:39, Pedro disse:

        Sabe o que me surpreende, só por você utilizar o smartphone as pessoas já associam que esteja numa rede social ou no WhatsApp simplesmente para ficar fuxicando ou “perdendo tempo”.
        Ninguém vem até mim e percebe que estou lendo uma reportagem no jornal, um artigo, livro ou até resolvendo algum problema ou realizando anotações. A coisa ficou tão pejorativa que você não pode realizar atividades profutivas, as pessoas parecem não aceitar essa hipótese.
        Isso me deixa muito triste, porque no geral se perde muito do que o smartphone oferece. E se você mostra as possibilidades, a pessoa diz que com papel pode fazer a mesma coisa e que não é viciado no smartphone, mas o aparelho está aí para facilitar.
        Quer dizer, ser “viciado” no papel é ok para a sociedade, mas no smartphone, não.

        • Em 2016.01.21 12:29, Bia Kunze disse:

          Pedro, entendeu agora por que o foco do meu blog mudou de uns tempos pra cá? Menos reviews e mais conteúdo educativo? Porque essa atitude das pessoas é ignorância mesmo, a maioria simplesmente não sabe o que um smartphone pode fazer… é hora de tirar da cabeça do povo que smartphone é coisa de “bitolado que só fica na internet”…

          • Em 2016.01.21 12:13, Leandro disse:

            Olá Bia, após ler o texto surgiu uma curiosidade se você já tentou usar o Microsoft Onenote. Eu sempre fico alternando entre ele e o Evernote. Você tem alguma opinião do tipo : “Por que Evernote e não Onenote?”

            • Em 2016.01.21 12:25, Bia Kunze disse:

              Oi, Leandro! Era o OneNote que eu usava até 2008, antes do Evernote. O que me fez migrar foi a possibilidade de usar em multiplataformas e até via web mesmo. Continua sendo a característica matadora para mim, usar em qualquer dispositivo, sincronizar na nuvem. Além disso, a integração com um monte de aplicativos de terceiros o torna a opção mais completa hoje. Abraços!

              • Em 2016.01.21 12:40, Gustavo Camilo disse:

                Olá, Bia.

                Você bem que podia bolar um curso só de Evernote, hein? Do básico ao avançado, do free ao premium… Rsrs.
                Sou fã de suas dicas de produtividade.
                Obrigado por compartilhar!

                • Em 2016.01.21 22:29, Bia Kunze disse:

                  Gustavo Camilo, já estão em fase de produção. 😉

                  • Em 2016.01.21 18:17, Henrique disse:

                    Sou usuário do Evernote na versão paga. Sobre a pergunta do leitor, não sei se fanatismo seria a palavra adequada, mas sim entender os termos “refém” e “dependência” como sendo o ato de confiar todo o seu “repositório de vida” e “memória perpétua” a um serviço de terceiros. Nem tanto em termos de privacidade pois acho isso uma grande ilusão, mas de achar que essa plataforma será eterna. E não sendo eterna, qual será o retrabalho num futuro (distante, espero) de migrar tudo para outro serviço?

                    • Em 2016.01.21 22:28, Bia Kunze disse:

                      Henrique, as coisas não ficam só na nuvem. Eu uso a versão do desktop e semanalmente faço backup de HDs externos. Não tem como perder nada não :)

                      • Em 2016.01.21 19:10, Delmary Andrade Coutinho disse:

                        Simplesmente amei… Sou de anotar e lembrar muita coisa, meus amigos me chamam de memória de elefante. ???? Antes eu anotava tudo na agenda de papel pra trabalhar, desde janeiro de 2014, decidi aposentar a agenda de papel e utilizo o S Planner pra agendar minha clientela, meus compromissos, contas a pagar e tarefas. Fora que, vc acha tudo isso digitando na busca, mesmo as anotações do ano anterior… Hoje sou mais organizada do que nunca. Anotações de papel, são poucas. E fora… Que utilizando esse método, teremos menos árvores cortadas, evitando um desmatamento maior por conta da fabricação de papel… ???? Amei a foto do caderno. Eu tinha mania de escrever no caderno, poemas e poesias que eu gosto, hj guardo um pouco no S Planner, ou melhor… Praticamente guardo quase tudo.

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